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Baleia Azul – o empoderamento da ignorância e da desestrutura familiar

 

As notícias sobre o início deste jogo que culmina em suicídio são desencontradas. Há quem afirme que começou com uma falsa notícia (fake news) em um conceituado jornal russo (Novaya Gazeta) e há quem afirme que iniciou pela mente maquiavélica do jovem russo Philip Budeikin. O consenso é que iniciou-se na Rússia entre 2013 e 2015 e está matando adolescentes pelo mundo até hoje... Mas será mesmo o “jogo” que está matando os jovens?

Confira neste artigo de Lou de Olivier.

 

Nas recentes semanas, a Baleia Azul (Blue Whale) tem sido um dos temas preferidos entre pais, mães, professores, Terapeutas e até curiosos. Todos muito preocupados com os efeitos devastadores de um jogo que parece ter se iniciado com uma notícia falsa atribuída ao jornal russo Novaya Gazeta. Isso é questionável pois este parece ser um conceituado jornal, conhecido em seu país por sua cobertura crítica e investigativa dos assuntos políticos e sociais russos, já tendo recebido alguns prêmios  que reforçam sua credibilidade. Eu confesso que nunca li este jornal (até porque não entendo russo e este jornal parece não ter versões em outros idiomas), mas pelas referências que consegui dele, penso que o mais provável é que este jornal tenha noticiado um fato real que foi a criação (provavelmente em 2013, mas com mais ênfase a partir de 2015) de uma rede de aproximadamente cinquenta pessoas (participantes do VK = Vkontakte, espécie de Facebook russo) que iniciaram trocas de mensagens que estipulavam “tarefas a serem cumpridas”. Entre as quais, não dormir, fotografar-se assistindo a filmes de terror, se automutilar, desenhando baleias no próprio corpo com instrumentos cortantes e, ao final dos cinquenta desafios, cometer suicídio, para “ganhar o jogo”.

 

Atribui-se a criação deste jogo ao jovem russo Philip Budeikin de 21 anos de idade. Ele teria começado esta troca de mensagens entre o grupo em 2013 sendo o “mentor” até 2015 e, segundo algumas notícias também desencontradas, já estaria preso desde esta época, ou seja, teria sido preso desde 2015 por esta e outras ações consideradas criminosas. Algumas notícias o citam como Phillip, The Fox (Phillip, a raposa) e afirmam que ele foi preso em São Petersburgo, em novembro de 2016, após ser investigado e apontado como responsável pela organização de oito grupos que incentivavam jovens ao suicídio na rede social russa Vkontakte. Estes grupos teriam levado quinze adolescentes ao suicídio entre 2013 e 2016. Porém, nestas notícias nada se cita sobre o jogo Baleia Azul. Apesar do desencontro de datas e afirmações, o que se tem certeza é que este jovem já está preso há tempos e mesmo assim, os suicídios parecem aumentar dentro deste “jogo”.  Se isso, de fato, se comprovar, então este “jogo” é mais nocivo do que se imagina, visto que consegue “caminhar sozinho” sem necessidade do mentor coordená-lo.

 

É neste ponto que quero chegar e analisar: de fato, este é um jogo perigosíssimo que caminha sozinho sem que ninguém possa detê-lo, mas este jogo não se chama “Baleia Azul” nem tem um mentor específico. Este jogo é iniciado pela ausência de diálogo e cuidados na família. Os jovens crescem em meio a uma total desestrutura, sem a presença dos pais. Em busca de uma vida material cada vez mais confortável, muitas vezes, os pais trabalham muito além de seus limites, conseguem viver com muito conforto, oferecem aos filhos o que a tecnologia proporciona de melhor e mais avançado, porém esquecem-se do básico. A segurança que a presença física dos pais proporciona, o interessar-se em fazer, ao menos, uma refeição diária junto aos filhos, um passeio (ou atividade) em família (periodicamente), o perguntar “como foi seu dia?”, o diálogo, o carinho, a compreensão diante de uma nota mais baixa ou um fracasso qualquer, o sorriso de bom dia, a recepção calorosa ao chegar... Atitudes que não custam nada, mas valem muito. E estas atitudes não são importantes só para as crianças, são importantes para todos que convivem em família. Sentir-se amado e aceito é mais importante do que qualquer presente ou bem material.

 

* Falta de informação ou desinteresse pelo tema?

 

Por volta do ano 1999, eu publiquei meu livro “Acontece nas melhores famílias”. Neste livro eu citava diversos problemas enfrentados em família e ensinava como lidar com eles. Estes problemas iam desde ciúmes doentios e amores possessivos até uso de drogas pelos filhos e traições entre casais. O nome era bem chamativo e os temas eram muito bons, abordados de forma sucinta porém profunda. E eu apostei que venderia muito e logo inúmeras famílias seriam beneficiadas com esta leitura.

Enganei-me, foram alguns anos até conseguir vender parte do estoque.                                                                             

E me desencantei mais ainda quando soube que, numa grande empresa de aviação, foram feitas seis mil cópias (xerocadas) deste meu livro. Soube por acaso, ao ser “reconhecida” por uma leitora que me contou o fato: um funcionário comprou um livro e os seis mil funcionários fizeram cópias para lerem também. Por um lado, foi bom, meu livro orientou seis mil pessoas, por outro me desestimulou, (afinal eu havia investido uma verba pessoal na edição dos livros e esperava, ao menos, recuperar o investimento) e interrompi a pouca divulgação que ainda fazia... E doei o restante do estoque que eu tinha.

 

Em 2008, resolvi apostar novamente neste segmento, revisei o livro, agora com o título mais chamativo, ao menos foi o que pensei: 

Distúrbios Familiares, termo que criei e que identificava exatamente o que eu abordava. Acrescentei muitos temas e abordagens, incluindo até como lidar com a morte sob vários ângulos, e ele passou a ser um livro de 132 páginas, desta vez publicado por uma editora mais antenada com a Educação e pensei que o momento seria oportuno. Nesta ocasião eu me apresentava quinzenalmente na RIT TV e na Rádio Record abordando temas terapêuticos. Este livro, assim como meus outros livros, foi exaustivamente divulgado. Ainda assim, não houve uma boa procura e, depois de alguns anos empoeirando nas feiras de livros, a editora anunciou que não faria a segunda edição.        

 

Isso me faz pensar que esta desinformação é gerada por um desinteresse das famílias em entender seus membros, em aceitar cada um como, de fato, é. E, acima de tudo, um desinteresse em buscar informações e prevenir muitos distúrbios e tragédias. O que, em teoria, se estipula “ser melhor prevenir do que remediar”, na prática se mostra ao contrário, na base do “deixa acontecer, depois tomaremos as providências para remediar”


  * Jogo mortífero que está tirando a vida de muitos jovens pelo mundo todo:
               

 

Neste ponto, eu volto ao tema deste artigo. O “jogo mortífero”, aquele que está matando cada vez mais jovens, que iniciou-se na Rússia e hoje, dois anos depois, está matando jovens pelo mundo todo. Talvez o melhor nome para este jogo seja “o empoderamento da ignorância e desestrutura familiar”:

 

Empoderamento é um termo “in”. No momento, tudo que se quer destacar como “autoridade”, “capacidade” e “força” tem necessariamente o termo “empoderamento” “acoplado”. Ignorância em duplo sentido, não só a ignorância em si que acaba transformando uma “brincadeira sinistra” entre alguns poucos jovens em um fenômeno de suicídios em nível mundial mas também a ignorância que faz algumas pessoas imaginarem que os bens materiais estão acima de tudo e justificam a ausência dos pais na vida dos filhos. Afinal, um “jogo” que tem cinquenta etapas a serem cumpridas antes do suicídio, que inclui não dormir, automutilar-se e outros “detalhes” macabros não acontece em cinco minutos de distração, são dias, meses de “participação” no jogo e, em nenhum momento, os pais perceberam esta mudança no comportamento dos filhos ou, se não há mudanças, ao menos uma enorme baleia “tatuada” amadoramente no braço ou perna da criança/adolescente, deve ser visível, não é?

 

A não percepção do que o jovem está passando (ausência de autoestima, depressão, descrença na vida e no futuro, ameaças entre outros) demonstra a total desestrutura da família na qual o jovem sente-se excluído a tal ponto que passa meses num jogo destrutivo até alcançar o grau máximo que é a morte. Embora seja mais fácil culpar um único jovem (possivelmente psicopata/sociopata) por toda esta tragédia em nível mundial, cada família tem que perceber sua parcela de culpa e responsabilizar-se pelo comportamento de seus filhos.

 

* Argumentos poderosos no jogo refletem a insegurança da criança e do adolescente:

 

Não quero passar a ideia de estar defendendo o criador do jogo. Se ele, de fato, foi criador/mentor, deve ser responsabilizado e punido. Mas o que quero frisar é que os argumentos usados para incriminar este rapaz, não seriam nada se esbarrassem em crianças e jovens seguros e amados. Alega-se que este mentor dirigia-se às vítimas apontando suas falhas como serem feias, gordas, não terem futuro e outros argumentos que só atingem crianças e adolescentes já complexados. Uma criança (ou adolescente) pode até ser feia, gorda ou ter qualquer outro “defeito”, mas se os pais (ou cuidadores) conversarem com ela, frisando que a sociedade estipula padrões de beleza que não precisam ser cumpridos, ser feia ou gorda não é um defeito, é apenas uma característica que foge aos padrões estipulados. O importante é ser feliz. Enfim, uma criança feliz, amada e segura pode ouvir todos os xingamentos, ser ridicularizada, sofrer bullying, isso poderá magoá-la, se for algo muito agressivo, pode até traumatizá-la mas, se ela confiar nos pais, se abrirá com eles e tudo se resolverá no início quando aindase pode resolver.

 

*Soluções que exigem atenção:


 

Este é outro ponto importante, a atenção dos pais ou responsáveis deve ser contínua e amável. E deve buscar soluções aos problemas logo no início quando é mais fácil e rápido resolver. Deve-se acompanhar os estudos e atividades dos filhos de forma contínua. Mostrar disponibilidade para ajudar a criança com suas lições/aprendizados, perguntar constantemente como a criança está se sentindo na escola e em outros ambientes que frequenta. Na medida do possível acompanhá-la até os locais que frequenta ou, sendo impossível acompanhá-la nos trajetos (por questões de trabalho por exemplo), buscar alguém de confiança que possa fazê-lo, especialmente quando a criança é muito pequena (abaixo dos três anos de idade). Em se tratando de Internet, há formas de se colocar filtros (alguns são gratuitos e podem até ser definidos no próprio navegador). Isso já aumenta bastante a segurança pois impede o acesso a diversos sites e recursos obscuros. E, acima deste recurso de se colocar filtros, está a supervisão de um adulto, verificando onde e de que forma estas crianças estão navegando. Buscar atividades presenciais também pode ser uma ótima solução. Incentivar passeios a museus, bibliotecas, cinemas, teatros, cursos. Enfim, mostrar às crianças que existe muita vida pulsando no mundo real e que Internet deve ser usada como um meio a mais de comunicação, não o único como alguns pensam.

 

A Internet, quando utilizada de forma correta, é um excelente meio de comunicação. Encurta distâncias, proporciona comunicação entre países, estados e cidades que, de outra forma, seria impossível. Proporciona conhecimento, de forma gratuita (obviamente é preciso filtrar o que se lê para verificar o que é verdadeiro e útil do que é mito ou inútil). Enfim, a Internet é ótima em diversos pontos. Apenas há necessidade de filtrar a navegação. E, no caso de crianças, este filtro deve ser redobrado.

 

* Conclusão:

 

Algumas crianças (e também adolescentes e jovens) sentem-se tão mal-amadas e inseguras dentro da própria família que qualquer estímulo externo as atrai e qualquer comentário as atinge. Isso independe do fator externo e a influência vem mais da forma como a criança entende o que acontece. É comum aos seres inseguros e mal-amados entenderem como ameaça alguns comentários que podem ser apenas alguma crítica construtiva. Da mesma forma, acabam se encantando com estímulos externos e até se deixando levar por procedimentos destrutivos como é este caso do jogo “Baleia Azul”. Muito além de prender e punir o criador do jogo, é preciso reestruturar a família, proporcionar a cada criança o direito de ter um lar com pais amorosos e atentos ao seu crescimento e evolução. Uma criança precisa de uma família acolhedora seja dentro ou fora dos padrões considerados normais, o acolhimento familiar deve estar presente na vida dela. Na atualidade, é comum apenas o pai ou a mãe cuidar dos filhos, ou por ser solteiro(a), divorciado(a) ou viúvo(a), mas ainda assim,por mais ocupado(a) que seja, é preciso encontrar um tempo para acompanhar o crescimento dos filhos e se mostrar presente quando necessitam. Em qualquer situação, o amor vence tudo. Então uma criança (adolescente ou jovem) amada e feliz, bem inserida no ambiente familiar, jamais se deixará levar por qualquer jogo que a machuque, manipule ou desvie dos ensinamentos que recebe em família.

 

Vamos refletir sobre isso?